Emprego formal cresce acima da ocupação
Estudo do Dieese mostra que assalariamento formal avançou 10,4% entre 2022 e 2026, acima do crescimento de 6,9% do total de ocupados; setor privado criou cerca de 4,4 milhões de postos com carteira
O mercado de trabalho brasileiro registrou, nos últimos quatro anos, um crescimento mais intenso do assalariamento, especialmente dos empregos formais. É o que revela o Boletim de Conjuntura nº 56, divulgado em setembro pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O levantamento mostra que, ao contrário da percepção de que o emprego com carteira estaria perdendo espaço para outras formas de trabalho, o número de assalariados cresceu mais do que as demais modalidades de inserção ocupacional.
Entre o segundo trimestre de 2022 e o mesmo período de 2026, o número total de pessoas ocupadas no país passou de 96,4 milhões para 103 milhões, uma expansão de 6,9%. Já o contingente de assalariados saltou de 65,3 milhões para 71,4 milhões, crescimento de 9,4%. Entre os demais ocupados — grupo que reúne empregadores, trabalhadores por conta própria e auxiliares familiares —, o avanço foi de apenas 1,6%.
Emprego formal cresce 10,4%
O destaque está no avanço da formalização. No período analisado, o número de assalariados formais — que inclui trabalhadores com carteira assinada, militares e servidores estatutários — aumentou 10,4%, enquanto o assalariamento informal cresceu 7%.
No setor privado, foram criados aproximadamente 4,4 milhões de postos de trabalho com carteira assinada entre os segundos trimestres de 2022 e 2026. Para efeito de comparação, o trabalho por conta própria aumentou em 852 mil ocupações. Mesmo diante da desaceleração recente da atividade econômica, o Dieese considera que o mercado de trabalho permanece resiliente.
Com esse movimento, o assalariamento ampliou sua participação no mercado de trabalho. Os empregados assalariados representavam 67,7% do total de ocupados no segundo trimestre de 2022 e passaram a 69,3% no mesmo período de 2026. O boletim observa, entretanto, que esse crescimento perdeu força depois de atingir 69,9% no terceiro trimestre de 2024.
Jovens no emprego formal
Os dados também contrariam a ideia de que os jovens estariam abandonando o emprego formal em favor do trabalho por conta própria ou do chamado empreendedorismo. Entre pessoas de 18 a 24 anos, o total de ocupados cresceu apenas 1,2% em quatro anos, enquanto o número de assalariados formais aumentou 10,8%.
Na faixa dos 14 aos 17 anos, a diferença foi ainda maior: enquanto o total de ocupados caiu 12,4%, o número de assalariados formais cresceu 26%. Para o Dieese, os números não confirmam a ideia de abandono da relação assalariada formal pela juventude e mostram aumento da parcela de jovens que ingressa no mercado por meio de empregos celetistas ou estatutários.
Mulheres e população negra concentram novas vagas
A expansão da formalização também alcançou de maneira expressiva mulheres e a população negra. Cerca de 2,4 milhões de postos, ou 51% do aumento líquido dos vínculos formais, foram ocupados por mulheres. Entre a população negra, foram 3,4 milhões de novos vínculos, correspondentes a quase 72% das novas vagas formais estimadas no período.
Os indicadores do boletim mostram ainda que o emprego formal cresceu 11,9% entre as mulheres, contra aumento de 8% no total de mulheres ocupadas. Entre a população negra, a expansão do assalariamento formal chegou a 14,6%, enquanto a ocupação cresceu 9,6%.
Ampliação de direitos
O Dieese destaca que o avanço dos vínculos formais tem importância que vai além do número de vagas. A formalização amplia o acesso à Previdência Social, férias, 13º salário e outros direitos e mecanismos de proteção aos trabalhadores.
O período também registrou crescimento da renda. Entre o segundo trimestre de 2022 e o segundo trimestre de 2026, o rendimento médio real dos ocupados aumentou 19%. No segundo trimestre deste ano, trabalhadores do setor privado com carteira recebiam, em média, R$ 3.386, contra R$ 2.608 dos empregados sem carteira.
Apesar dos avanços, o estudo ressalta que permanecem desafios importantes. No segundo trimestre de 2026, havia 13,6 milhões de empregados privados sem carteira e 4,1 milhões de trabalhadores domésticos sem registro. O Dieese também chama atenção para o crescimento de vínculos sem carteira e temporários, principalmente no setor público.
Na avaliação apresentada nas considerações finais do boletim, o desafio para os próximos anos é fazer com que a expansão do assalariamento seja acompanhada por empregos de melhor qualidade, mais direitos, proteção, melhores salários e condições de trabalho. Para o Dieese, qualidade do emprego envolve não apenas a forma de contratação, mas também remuneração, jornada, estabilidade, proteção social, representação coletiva, segurança e oportunidades de progressão.
